Eu só poderia crer num deus que soubesse dançar.

Gostaria de comentar um trecho de Assim falou (ou falava – há traduções e traduções) Zarathustra, de Friedrich Nietzsche

“É verdade: amamos a vida não porque estejamos acostumados a viver, mas porque estamos acostumados a amar.

(esse trecho é interessante porque defende a ideia de que tudo o que fazemos, fazemos por nós. Se eu ajudo uma velhinha a atravessar a rua, fiz porque espero uma recompensa – paraíso eterno, ser bem visto na sociedade – ou porque isso me faz bem. Posso até estar ajudando a velhinha, mas no fundo no fundo, estou fazendo por mim, para que eu me sinta melhor e me encontre em uma posição melhor que a atual. Voltando ao texto..)

[…]Há sempre o seu quê de loucura no amor, mas também há sempre o seu quê de razão na loucura. E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelha entre os homens.

(Veja bem.. o que as bolhas de sabão têm de mais característico? Elas voam, flutuam pelo ar (não, flutuam na terra ¬¬¨ hahahaha) sem rumo algum, até desaparecerem. As borboletas, de alguma maneira, são as coisas voadoras mais sublimes, bonitas e suaves durante seu voo. Voltando ao texto..)

[…]Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadume!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; portanto não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo, agora vejo a mim mesmo por baixo de mim, agora dança em mim um Deus”

Assim falou Zaratustra.

Texto extraído do livro “Assim falou Zaratrusta”, Friedrich Nietzsche, capítulo “Do ler e escrever”.

Livro citado, impresso pela editora Vozes.

Ora, exaltar aquilo que é leve e flutua – bolhas de sabão e borboletas – e dizer que só poderia crer num deus que soubesse dançar.. Nietzsche claramente – ou não tão claramente assim – está defendendo a ideia da vida leve, da vida que não é pesada, da vida que não possui fardos a serem carregados.

E quando se vê o próprio demônio – o que há de ruim em nós – e ele se parece pesado, Nietzsche está falando da moral cristã da sociedade ocidental. O cristianismo – esse platonismo para o povo – é a moral decadente, é a própria décadence par excellence. Decadência por que? Porque é a moral dos fracos, oprimidos e desgraçados. Não se exalta a vida, mas a desgraça. Não se exalta o viver e o gozar a vida, mas sim o não viver, o não gozar a vida.. de fato, o cristianismo ensina a negar a vida e tudo o que é natural em prol de uma vida além-mundo.

Quando se separou o conceito de Natureza do conceito de Deus, tudo foi por água abaixo! E então tudo o que é natural passou a ser negado e abominado em nome de deus, que não está na natureza e nem é natural, mas está além-mundo.

Uma boa tradução de uma obra icônica e obrigatória a todos que querem entender porque a moral cristã é nociva à sociedade.

O cristianismo tornou impossível a crença em deus. Ou como Nietzsche mesmo disse em O Anticristo no aforismo 47 em bom, claro e distinto latim: Deus qualem Paulus creavit, dei negatio. O que significa mais ou menos que o Deus, tal qual Paulo inventou, é a negação de deus. Paulo aqui é o apóstolo que funda a igreja católica e etc.

Eu só poderia crer num deus que fosse leve, que não tivesse moral que me impedisse de viver, um deus que soubesse dançar.. que não fosse duro feito pedra, estático feito montanhas.. mas que fosse um eterno devir, um eterno vir-a-ser, um eterno movimento.. uma eterna DANÇA. Daí que Nietzsche vai opor Apolo e  Dionísio. Apolo é o deus da razão, da dureza, do certo, da retidão.. Dionísio é o deus da embriaguez, do movimento, da bagunça, do caos, da leveza, da dança..

“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante..” Assim Falou Zarathustra

E agora, meus amigos, dança em mim mesmo um Deus 😉

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10 comentários em “Eu só poderia crer num deus que soubesse dançar.

  1. José Régio, poeta portugues do início do século XX provavelmente não tenha conhecido as contribuições de Nietzsche para a filosofia ocidental mas grosseiramente falando pode-se observar muita semelhança entre os pensamentos. Realmente as reflexões do teu texto permite que se observe com muita clareza as ideias do filósofo, contribuindo para que se repense toda a moralidade à qual estamos atrelhados. Apesar de eu ainda não ter lido Nietzsche da forma que se propõe para um licenciado em filosofia penso que pra todos os efeitos suas ideias são, de fato, uma renovação da estrutura moral muito diferente de tudo que se falou sobre ética em toda tradição filosófica. Concordando com suas sábias palavras, eu preciso me livrar dos fardos e grilhões da moralidade cristã e permitir que esse deus dance em mim.

  2. Nunes, já pode dar as mãos para o Giacóia e sair dançando com deus por aí… eu só entendo Nietzsche quando converso com você ou leio seus textos. Muitas vezes pego alguns aforismos do Humano Demasiado Humano pra refletir, sinto que Nietzsche além de ser humano em demasia, é ele que se encontra além do bem e do mal. Um deus natural, sem fardos, sem bem ou mal e, acima de tudo, leve como uma bolha de sabão… so perfect… não me espanto quando vejo algumas pessoas (principalmente estudantes dá área das humanidades) estudantes elevando Nietzsche ao “cargo” que muitos dão ao deus cristão. Eu, assim como o Walmy, também preciso me livrar dessas amarras que minha própria consciência me impõe. As vezes eu queria ter amnésia. Ps: meus alunos adoram seus textos, esse será o próximo que levarei para eles =D

    1. Frôzinha, eu ACHO que Nietzsche não é humano, demasiado humano.. eu ACHO que ele é totalmente contra o homem que existe.

      “o macaco é um animal dócil demais para que o homem tenha vindo dele..”
      “o homem é uma corda estendida entre o animal e o übermensch, perigoso caminhar, perigoso parar, perigoso cair ou olhar para trás..”

      O homem que temos é o homem decadente, com valores da décadence, valores cristãos..
      Por que para Nietzsche a sociedade cristã ocidental é nihilista? Porque o cristianismo ensina o homem a negar a própria natureza em prol do além-mundo e – posto que “sou ateu por instinto (Ecce Homo) – o além-mundo não existe, é um nada.. então o cristianismo ensina o homem a trocar a sua vida pelo nada, por isso Nietzsche chama o homem que ele conhece de homem nihilista, decadente, humano.. demasiado humano e que precisa ser superado.

      “Quanta desgraça! 2000 anos e nem um outro deus sequer foi inventado!” (Der Antichrist)

      1. Ah Ah Ah, não acredito que confundi Humano Demasiado Humano com Ecce Homo… eu quis dizer ECCHE HOMO…. mesmo porque já conversei disso com você e tals… rapá, me embananei toda, mas valeu a clarividência xD

  3. Cara, gostei disso! Adoro que me façam pensar…embora tenha tanta dificuldade de me aproximar de Nietzsche. 😉

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